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Brigada Militar: coação, autoritarismo e vergonha

Adão Paiani


A consulta ordenada pelo Comandante-Geral da Brigada Militar, Cel. João Carlos Trindade Lopes para identificar, dentro da corporação, quem é favorável ou não a essa indecência de proposta e que o governo chama de “aumento” aos servidores dos quadros de base, não é apenas uma tentativa sórdida de tentar esvaziar o movimento e retirar a legitimidade das entidades representativas da categoria, mas também coação ilegal, na medida em que cada soldado é obrigado a anotar o número de sua matrícula e da carteira de identidade e responde se quer ou não o reajuste oferecido pelo governo.

Quem conhece como eu, mesmo sendo civil, o funcionamento da Brigada Militar, fundado na hierarquia e disciplina, sabe qual o real objetivo disso. Esse é o segundo episódio explícito de truculência, ilegalidade e autoritarismo do atual Comandante; o mesmo que ano passado teve a petulância, em pleno regime democrático, de proibir manifestantes, na frente do Palácio Piratini, de portar cartazes contra o Governo do Estado e seus agentes, acusados de corrupção. Isso sem falar no assassinato de Elton Brum da Silva, que marcará sua passagem pelo Comando-Geral.

É o cúmulo da submissão do Comandante de uma corporação com quase duzentos anos de história a um governo estertoroso, afundado em denúncias e que não consegue estabelecer um diálogo decente com nenhum segmento da sociedade; querendo impor a força suas políticas desestruturadoras, sem admitir o contraditório.

Esse servilismo vergonhoso, na ânsia de retribuir o prêmio recebido de comandar a corporação, desdoura a trajetória desse Comandante e envergonha a própria Brigada Militar. Até assumir a função, o Cel. Trindade Lopes era conhecido como intelectual e quadro extremamente qualificado; conhecedor das polícias de várias partes do mundo; mas depois disso parece não se interessar em utilizar na sua gestão tudo o que aprendeu; todo o investimento em sua formação, pago com dinheiro público e que deveria ser colocado em benefício da sociedade; e não de interesses meramente pessoais. Esqueceu que polícia ostensiva não se faz somente com a oficialidade ou dentro dos gabinetes, mas na rua com soldados, sargentos, tenentes, capitães.

Essa postura truculenta estabelece um clima de tensão e disputa perigosa dentro dos quartéis, o que terá sem dúvida alguma, reflexo direto na atuação brigadiana nas ruas. Fomenta a quebra de hierarquia como último recurso ante a ilegalidade de uma disposição, e em nada contribui para melhorar a situação caótica em que vive a segurança pública na atual gestão. Com um Comando servil, sem propostas, sem diálogo e agora corroída em suas bases, o que resta para a Brigada Militar?

A resposta da consulta já foi dada, da forma mais legítima possível, pelas entidades representativas. Outra coisa qualquer, é ilegalidade, coação, autoritarismo e vergonha.

Um Comandante de verdade comanda toda a tropa, e não somente uma parte dela; e tem responsabilidades para com todos, interna e externamente. Um verdadeiro líder tem a obrigação de saber disso.

Adão Paiani é advogado



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